Já passava das 21h00 quando aterrei. Descontando o choque inicial e o cansaço, nem me sentia mal. Sentia-me perdido numa terra onde os costumes com que cresci não imperam, onde a cordialidade é matéria rara e saber esperar é extraterrestre.
Depois de ter levado uns quantos encontrões lá consegui apanhar a mala e sair do aeroporto.
A minha espera estava o F.F., homem do norte com sotaque carregado, bem-disposto e exigente na arte de bem receber. Entrei no carro e vi o vidro da frente partido, pensei que tinha tido azar mas afinal fora do normal é ter o vidro inteiro aqui por estas bandas.
Mal cheguei ao meu novo poleiro já o jantar estava na mesa, polvo, de um tamanho que nunca antes me passara pelo paladar e uma fresquinha para ajudar a desembuchar, depois fui até ao quarto que, apesar de o F.F. me ter garantido ter sido limpo cuidadosamente pela empregada, deixava muito a desejar no campo da higiene. Felizmente vim preparado e mesmo antes de dormir lá lhe dei a volta para me sentir mais descansado.
Cabinda é uma terra estranha: tão depressa se vêm laivos de
riqueza como pobreza a perder de vista, mas é uma pobreza estranha, como me
disseram por aqui, “esta malta prefere ter um carro xpto ou um Iphone do que
casa de banho”. Nos dias que se seguiram à minha chegada tive oportunidade de
passear um pouco. Ver casas que se multiplicam como ratos pelas encostas, de
malta que vem de outras províncias a procura do ganha-pão. Vi edifícios novos
que pertencem ao governo ou a instituições governamentais, pessoas a tomar
banho em rios que albergam mais lixo que água e hotéis de luxo cuja clientela
tem um tom de pele um pouco mais clara.
Falar com os locais é uma aventura, seja pelo que lhes vai na cabeça ou pelo crioulo que lhes passa pela língua mas até agora não tenho motivo de queixa, sinto-me bem recebido pelos que me são apresentados e pelos que vou conhecendo embora saiba que serei sempre um estrangeiro.
Falar com os locais é uma aventura, seja pelo que lhes vai na cabeça ou pelo crioulo que lhes passa pela língua mas até agora não tenho motivo de queixa, sinto-me bem recebido pelos que me são apresentados e pelos que vou conhecendo embora saiba que serei sempre um estrangeiro.
Os supermercados até vão tendo alguma coisa, já vi a venda
máquinas Nespresso, plasmas, lcd’s e tablet’s, tudo com um custo altíssimo mas
nada me chocou mais que o preço da internet, cerca de 200 dolares pelo que eu
acho aceitável… Realmente tenho que reavaliar as minhas prioridades.
O tempo é quente, mesmo agora que estamos no inverno mas a praia de Cabinda não é apelativa. Basta olhar o horizonte para observar as plataformas que extraem o ouro negro da terra e que vão deixando algum dele espalhado pelas águas que banham a costa.
Devo dizer que a experiencia está a ser agradável mas há coisas que doem na alma.
O tempo é quente, mesmo agora que estamos no inverno mas a praia de Cabinda não é apelativa. Basta olhar o horizonte para observar as plataformas que extraem o ouro negro da terra e que vão deixando algum dele espalhado pelas águas que banham a costa.
Devo dizer que a experiencia está a ser agradável mas há coisas que doem na alma.
Assim que cheguei contaram-me a historia do homem que atropelou uma criança que acabou por morrer devido a falta de cuidados médicos, da sorte que teve por não ter sido morto pela população enraivecida pelo acidente e o conselho de que numa situação idêntica não se deve parar, é continuar e procurar o posto da policia mais próximo.
Ouvi também um dos encarregados contar que os trabalhadores
estavam de “volta” de uma miúda de treze anos e a única coisa que ele disse foi
“ ao menos lava isso com a mangueira”.
Os pelos do pescoço eriçaram-se, o punho apertou-se a volta do garfo e fui forçado enterrar a vontade de o esmurrar com todas as minhas forças num canto escuro e sombrio do meu ser.
Os pelos do pescoço eriçaram-se, o punho apertou-se a volta do garfo e fui forçado enterrar a vontade de o esmurrar com todas as minhas forças num canto escuro e sombrio do meu ser.
Acho que para viver aqui uma parte de nós tem de adormecer, ficar impávido as desgraças e situações que assolam este povo, para mim é deixar corpo e mente dormentes, fazer de conta que estou num filme e que nada disto é real. É isso ou deixar-me esmagar pelo peso dos remorsos e da consciência.
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