quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Ela...



Ela olha para mim…
Oiço a sua voz sussurrar-me ao ouvido, calma, serena, como se de uma doce melodia se tratasse.
Embala-me, hipnotiza-me, tenta-me.

Vá, toma-me na tua mão, usa-me para escrever o que queres dizer, usa-me para materializar o que tens ai dentro.

Hesito…

Vá, pega-me, toca-me, afoga as tuas mágoas através de mim…

Relutante alcanço-a, os dedos tocam-lhe ao de leve e num instante a minha mão ganha vida própria.

Uma torrente de sentimento cai sobre o papel.
Inundo a página, as letras saem umas atrás das outras, as palavras formam-se e dentro de mim algo muda, a raiva, a dor, desejo, a loucura, flui com uma força que me esmurra, me tomba e leva na corrente e eu grito.

BASTA!!

Mas ela não para, onde antes me aliciava com a sua voz doce, agora grita, geme de prazer.

Sim… Mais… Não pares…
E eu rendo-me, baixo os braços, deixo-a sugar tudo o que tenho cá dentro.
Passa o tempo, esgotam-se as forças e por fim termina, já não ouço a sua voz. O silêncio retorna, a calma… mas eu…

Eu fico de rastos… vazio…
Tudo parece irreal, como se de um sonho se tratasse.
Mas não é. Sei-o bem, há minha frente vejo o resultado. As páginas manchadas, o meu corpo esgotado, o meu peito vazio…

Sinto-me dormente, adormecido numa falsa paz…
Falsa, porque eu sei que não dura, que não foi o fim, em breve voltarei a cair nos seus encantos, na tentação, em breve voltarei a ouvir a sua voz, a falsa promessa de um fim, de repouso, de paz.

E ela chama-me…

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