domingo, 6 de julho de 2014

Fotos















Um almoço Angolano.

Desenganem-se aqueles que clamam que o mundo não é pequeno.
Nos recônditos de Angola, numa pequena cidade a norte de nome Cabinda fui encontrar alguém que fez formação no mesmo sítio onde trabalhei e foi aluno de colegas meus de trabalho. Quando Membar Mayala passou por Portugal em 2005 não lhe passava pela cabeça que em 2014 iria trabalhar com alguém que lhe traria ao de cima memórias tão boas dessa altura.
Ainda bem que assim foi porque este ínfimo pormenor quebrou o gelo entre nós e depressa nos tornamos amigos. Este sábado tive o prazer de ser recebido em sua casa, por ele e pela família fantástica que me disse vezes sem conta, "Pai esta casa é tua, está a vontade."
Convidou-me para almoçar, combinamos encontrarmo-nos a 1h30 e 40 minutos depois da hora marcada, como manda o bom costume Angolano, lá apareceu para me vir buscar.
Membar mora no bairro 1º de Maio zona A, numa vivenda enfiada por entre ruelas de terra batida e lixo, e acompanhada pela rotina de quem é seu vizinho. Mas ele pode se considerar um privilegiado, inteligente e com gosto pelo estudo, insistiu em estudar apesar de a agora mulher dele ter engravidado com apenas 14 anos. A família dela ficou muito brava comigo, contou-me enquanto aguardávamos o almoço, mas eu assumi e insisti em continuar a estudar. Foi esses estudos que hoje lhe permitem ter um ordenado mais de 6 vezes superior ao da média e poder relaxar no espaço isolado de toda a pobreza que lhe rodeia a casa.

O almoço foi Moamba, prato que nunca tinha tido o prazer de degustar, acompanhado de banana fervida. Devo dizer que a galinha apesar de rija era saborosa, preparada pela esposa que permaneceu a maior parte do tempo na cozinha enquanto a filha nos servia a refeição. Nunca me vou conseguir habituar ao costume de os homens comerem a parte, o almoço foi servido só para mim e para ele e o resto da família almoçou na cozinha. E de nada valeu a minha insistência para que nos sentássemos todos a mesa, como costumam dizer, quando em Roma sê romano.

A filha de Membar tem 24 anos, estuda petroquímica coisa que por estas bandas lhe vai garantir um futuro mais desafogado, se bem que será difícil alguma vez chegar ao ordenado que o pai aufere hoje em dia., ou talvez eu me engane e espero mesmo que esteja longe da verdade neste assunto.

Depois do almoço fizemos uma sessão de fotografias, algumas já com destino a este meu canto digital e outras com destino a Portugal, para fazer recordar os que ainda restam na empresa de Membar Mayala, o homem que dentro das suas possibilidades têm vindo a manter os hospitais aqui desta terra em funcionamento, usando o engenho e as técnicas que aprendeu durante uns meses em Portugal.

sábado, 5 de julho de 2014

Turning to stone.

How many times must a heart break before it gets turned to stone?

I feel like my heart is too soft for this reality I’m living now, and day by day it breaks a little. And it gets a little bit harder than before. And crack by crack, as it heals, it slowly starts to turn to stone, until it no longer breaks. And then, you become cold, and unaffected by what goes on around you. You become numb, tears no longer flow and close yourself in a shell, trying to by invincible to the despair the walks slowly down the street.

Africa is little by little turning me into something different, and I have to leave before it makes me to hard. 

The lack of compassion, the lack of morality, the lack of respect for the human condition, all those things are present in everyday life. Like the little girl that comes almost every day to the house where I work to make a red water that is later frozen and sold as ice-cream. She can't be more than 10. From the countless stories of man who take advantage of women simply because they need food, clothes or money to feed their kids. The poor healthcare for the people who can’t afford the “good” one. Every day I walk down the pediatric aisle the screams dig a little bit deeper in my head.

And the sharks, those business man, that swim around in these waters and devour whatever prey crosses their path, with no regard to the people that are a part of this land.

But there are good things here as well. Like everywhere, there are always small glances of hope around. In the eyes of those who believe that things can change, that try to make that change, limited only by the lack of tools.

On these days I feel powerless, wanting to help without knowing how to. I try, although weakly, to soften the blows to my heart, giving just a little. A different view, a different approach, a better chance. It maybe be little but it’s a start.

domingo, 29 de junho de 2014

Ao lembrar-me de ti.

Adoro deitar-me na cama, fechar os olhos e imaginar-te. Sinto-me sereno, em paz, como se todos os meus problemas fossem levados pelo vento.
Vejo os teus cabelos castanhos, lisos, encostados nos ombros a adornar-te a face. Fico horas a imaginar que me perco no teu olhar, mergulhando dentro da tua alma, devagar, entrando ao de leve e deixando-me inundar por ti. Vejo a tez pálida da tua face, sinto a minha mão a percorrer-te o rosto, o teu perfume hipnotizando-me enquanto eu me deixo levar pelo meu imaginário.

As vezes regresso a noite em que parti, estou outra vez no frio, estou outra vez nos teus braços, sinto o teu corpo a tocar no meu e o meu coração a apertar por saber que é o ultimo momento, a ultima chance de te ter junto a mim. Aperto-te mais uma vez, beijo-te pela última vez, deixo a lagrima cair enquanto te vejo a caminhar para longe de mim.

Vou sonhando com os teus lábios vermelhos, num beijo doce que me dá um aperto no peito. Deixo-me invadir pelo pensamento, deixo-me invadir pela saudade de ti.

Volto vezes sem conta aos momentos que passamos, as horas que passaram por nós sem darmos conta, as gargalhadas que soltamos juntos, aos segredos que partilhamos. Volto a ver-te naquela paragem de autocarro, estou outra vez a tua espera, ansioso pelo momento em que apareces naquela esquina.

Agora estou longe, mas dou comigo a imaginar, que te tenho aqui, só para mim, num capricho de criança. Adormeço a noite enquanto vagueias no meu inconsciente, sem consciência de que o fazes.

Dou por mim a pensar nos ses, e nos talvez. Dou por mim a amaldiçoar as certezas e as consequências da realidade. Dou por mim a gritar só por mais uns minutos, mais umas horas. Dou por mim a pedir aos céus mais um momento só nosso. Um momento que fica preso no tempo, aonde só tu importas, aonde só me vês a mim, mesmo que seja breve, mesmo que seja só mais um.

Recordo com prazer a tua maneira de falar, o teu jeito de mexer, o teu olhar confiante a superfície mas indeciso lá por trás. Recordo os teus sonhos, as tuas vitórias e derrotas, recordo-me das alegrias e das tristezas, lembro-me de como és.

Se estou apaixonado não o sei, sei apenas que o teu sorriso me aquece, que o teu corpo me acalma, que tu me completas. Deixo-me levar a loucura de não te ter, a loucura de ter deixado parte de mim contigo, a loucura de querer voltar e não poder.

Nós por cá.

Desde que cheguei a Cabinda tenho conhecido espécimes humanos que pensei já não existirem, e não digo isto com qualquer conotação negativa.
É verdade, pelo menos aqui, que burro velho não aprende línguas mas há coisas que me revoltam.
Uma das histórias já foi parar ao papel digital, outras ficam por contar, para mais tarde as imortalizar, ou assim espero, neste cantinho onde despejo o que me vai na alma.
Como já disse fui recebido pelo F.F., homem forte do norte, baixinho mas com garra, vinha com vontade de engolir Africa, mas desconfio que foi Africa que o engoliu. É daqueles que diz “semos” em vez de “somos” e “Cavinda” em vez de “Cabinda”, mas 5 estrelas, lá deve ter os seus defeitos mas eu pelo menos ainda não os vi. 
Nota-se a vontade de se afirmar, mesmo que seja por se sentir importante num sítio onde a importância não importa. Já tem família e desconfio que daqui já só sai deitado, isto claro, se alguma vez chegar a sair.
Eu sempre tenho a sorte de ver os dois mundos em ação, aquele dos bem formados em que o civismo ficou, se calhar no avião, e o daqueles em que a formação foi feita de balde na mão. É estranho ver tratar alguém assim, mas mudar isto seria como tentar pedir a uma parede que se mova. É preciso esperar pelas novas gerações, que vêm com novas ideias e outros valores. E, verdade seja dita, não é só aqui, por todo o mundo há pessoas que fixaram na mente que têm mais direito, por este motivo ou aquele, que o resto dos mortais. É estranho, pelo menos para mim, ver quem ordena que lhe descarreguem o carro, que lhe comprem a espuma de barbear ou então que lhe tragam o prato que nem a 3 metros de distância se encontra.
Eles dizem que o povo aqui é burro, mas eu acredito que o problema é outro. São outras realidades, vividas na base do desespero, numa terra onde nada funciona por mais que eles nos queiram convencer do contrário. A educação é uma anedota e a saúde é só para quem tem dinheiro. Tudo aqui é difícil, ver pessoas que têm de sobreviver com 250 dólares por mês quando um pacote de leite custa 3 dólares. Até tenho vergonha de dizer quanto recebo, não que seja demais para o que estou a fazer e viver, mas pela disparidade com a do resto dos naturais da cidade.

Coisa que estes emigrantes precisam, como de água para respirar, é de mulheres, e aqui é fácil para quem quiser andar nessas andanças, ter o tom de pele mais clara sem olhos em bico significa uma carteira mais abastada, regra geral, e elas sabem-no. Das 5 pessoas com quem partilho o espaço habitacional não há uma que não tenha alguém que lhe aqueça a cama, mais à conta da carteira que dos seus lindos olhos.

Mas desenganem-se aqueles que pensam que malvados são estes emigrantes, porque por muito que eles queiram afirmar que têm a situação controlada, o dinheiro teima em sair da carteira como se esta tivesse um furo por onde ele escorre como se de água se tratasse. E assim continuam, na maioria todos com família em Portugal, mas verdade seja dita ainda não conheci um que não tivesse ajudado financeiramente os filhos a serem homens e mulheres de vida feita.

Quanto mais tempo passo aqui mais certeza tenho, que preciso de sair daqui antes que Africa me engula ou enfeitice como aos demais, todos dizem que o que os prende é o dinheiro, mas não, é a vida que levam aqui, que nem em Portugal nem em outro país civilizado conseguiam alguma vez levar.

Mas tenho esperança que isto mude, ou se calhar sou só mais um louco que espera o que tarda em chegar.

Fotos and more photos =)





















segunda-feira, 23 de junho de 2014

A strange land.



It was past 21h00 when I landed. Taking out the initial shock and the tiredness from the trip I didn't felt that bad. I felt lost in a land where the rules and behaviors with which I was raised aren't the norm, where good manners are a rare thing and patience completely alien.
After a few bumps to reach my luggage I finally managed to leave the airport.
Waiting for me was F.F. man of the north with a strong accent, joyful and demanding in the art of proper welcoming’s. As I entered the car I noticed that the windshield was broken, at the time I thought it was bad luck but in time I realized that out of the ordinary is to have it in one piece.
As soon as I reached my new home dinner was already waiting for me, octopus in a size I had never seen and a cold beer to wash it down, afterwards I went to my room, and although F.F. assured me it had been clean thoroughly by the maid, fell short of my expectations, luckily I came prepared and before I went to sleep I gave it a quick fix to make me feel more relaxed.
Cabinda is a strange land, you can easily see traces of wealth and poverty as far as the eye can reach, but it’s a strange poverty, like someone told me here “they prefer to have a top of the line car or an iPhone than a bathroom”.
In the days that followed I had the chance to of doing a bit of sightseeing. I seen houses that multiplied like mice, accommodating people that travelled here to try and earn a bit to eat. I seen new buildings that belong to the government or to governmental institutions, people bathing in rivers with more garbage than water and luxury hotels where the clientele has a lighter shade of skin.

Speaking with the locals is a real challenge, being for what goes in their head or from the slang they use but so far I can’t complain, I feel well received although I know I’ll always be a foreigner to them.
The supermarkets still have a few things, I seen some Nespresso machine, Plasma Tv and lcds as well as tablets. All very expensive I must had but nothing shocked me more than the price of the internet, 200 dollars for what I find acceptable, I guess I have to reevaluate my priorities.

The weather is hot, even now that we’re in the beginning of winter, but the beach isn’t that tempting. We just have to look into the horizon to see the rigs that extract the black gold, leaving some of it spread in the waters that bathe the coast.

I must say the experience is being pleasant but there are things that hurt the soul.

On my first day here they told me the story of a coworker that runed over a little girl that end up dying do to the lack of medical attention, they told me how lucky he is to be alive because in a situation like that if you stop you risk being killed by the surrounding crowd.

I also heard one of the construction managers tell that some of his local workers were taking advantage of a little girl that shouldn’t be more than 13 and the only thing he told them was to “at least clean it with the hose”.
I felt the hair in the back of my neck rise, my fist clenching the fork and I saw myself forced to bury deep down the urge to punch him, bury it down in a black corner of my being.

To live here a part of us has to fall asleep, become numb to the misery and despair that haunts this people, to me Is to leave my mind behind, trying to convince myself that I’m in a movie and nothing of this is real. It’s either that or become crushed by the weight of my own remorse and conscience.